O Halloween Um conto escrito por oggy & tula (Rodrigo de Souza)
Um grito foi derramado ao longo da extensão do parque, levando o pânico por entre as árvores até os ouvidos do guarda florestal. Alguém precisava de ajuda, mas ele não podia supor de onde partira aquela exclamação. Apressado, atravessou os troncos, correndo sobre o solo repleto de folhas de outono, na tentativa de encontrar a mulher que poderia ter sofrido um acidente ou sido vítima de um crime. A tarde ia, aos poucos, cedendo espaço à escuridão noturna. Quanto mais tempo a busca tomasse, mais difícil ficaria seu trabalho. A cada passo, era impossível dizer se ele se aproximava ou se afastava. A certa altura, já pensando em ligar para a polícia, ele sentiu uma tontura e não conseguiu se conter, deixando o corpo cair sobre as folhas secas. Abrindo novamente os olhos, se ergueu e ligou a lanterna. Prosseguiu com a procura, sentindo-se forte. Numa área aberta, ele parou, cansado. Encontrou a mulher que gritara estendida no chão, o rosto rasgado e a pele acinzentada. O sangue melara seu vestido branco. Parecia ter uns vinte anos, talvez um pouco menos. Chegara tarde demais. Ia-se afastando para ligar para a polícia, mas notou que, sobre uma pedra, havia uma câmera ligada. ************************************************************* Phoebe estava em casa assistindo ao noticiário. “Uma garota foi encontrada morta no parque de Wipstone ontem à noite. Ela apresentava profundos arranhões de origem temporariamente desconhecida e ferimentos graves pela pele. Seu nome era Frannie Duckban e ela tinha dezenove anos. Não há sinais de estupro e a polícia não acredita que ela foi agredida por alguém, mas por um animal. Mais notícias ao vivo daqui a meia hora.” Phoebe desligou a tevê e foi à cozinha. - Piper, o que está fazendo? - Eu pergunto isso a você. Passei a madrugada preparando a comida que você vai devorar aqui hoje à noite enquanto você dormiu, viu tevê e foi ao shopping. Agora chega aqui perguntando o que eu estou fazendo! Piper se virou para tomar satisfações, mas Phoebe já deixado a cozinha. Ela voltou a fazer os brigadeiros. Prue chegou com algo nas mãos. - Piper, de quem é isto? Era uma pequena pedra que, lentamente, mudava de cor. - Deve ser da Phoebe. Notando o nervosismo da irmã, Prue pegou a chave do carro e fechou a porta. ************************************************************* Em sua casa, o homem que encontrara o corpo apertou “play” no controle. “Gary, eu te amo. Apesar de você ter que viajar e a distância entre nós ser tão gran...” “Tá péssimo. Eu mereço algo melhor.” “Gary, agora você me deixou sem palavras! Eu estava falando do fundo do meu coração pela quinta vez e você novamente interrompeu exigindo mais!” “Não grite comigo. Eu já estou aqui e vou terminar isso.” “Só se for sozinho. Agora quem vai embora sou eu.” “Você não me conhece! Pare agora.” “Cansei de você, Gary. Ei, o que é isso? Não! Não! Aaaaah!” Era o grito ouvido pelo guarda. ************************************************************* Prue estava em seu escritório, jogando a bola de baseball na parede e agarrando-a de volta. Cansada, passou a usar os poderes. A bola ia e vinha. A porta se abriu, fazendo-a parar. - Tânia?!, disse, desconcertada. - Tudo bem, eu já sei de tudo. Prue sentiu um frio na barriga. - Sobre o quê exatamente você está falando? - Eu sei que você é uma bruxa. - Bruxa, eu? - É. Eu venho notando que você move objetos! - Bem, eu não sei o que dizer. Isso é segredo, ninguém pode descobrir. Tânia sorriu e abriu o carrinho. - Aqui está seu sanduíche de peru sem maionese. - Obrigada. Tânia ia saindo, mas retornou: - Eu não quero parecer oportunista, mas queria te pedir um favor. - Diga. - Eu estou apaixonada por um cara que se insinuou pra mim. Não sei se ele realmente me ama. Queria me aproximar mais dele, e vice- versa. - Talvez eu possa ajudar. - Obrigada! - Preciso de sua presença quando eu for fazer o feitiço. - E funciona mesmo? - Posso confirmar. Piper já usou. - O quê? Aquela Piper que veio aqui outro dia também é bruxa? Prue sentiu outro frio na barriga. - Não se preocupe! Confie em mim! - É tudo o que me resta a fazer. Quando você vai lá em casa? - Hoje à noite? Me dá o endereço! - Não, à noite não vai dar. Vamos celebrar o Halloween. - Ah, eu tinha esquecido! - Está convidada. Acho melhor você sair daqui comigo e lá fazemos o feitiço. Depois você vai pra casa. - Está bem. Não sei como agradecer. Tânia puxou seu carrinho de sanduíche e Prue caiu na cadeira. Fechou a porta e voltou a jogar a bolinha na parede. ************************************************************* A noite cobriu São Francisco. Na casa das Halliwel, a campainha tocou, e Phoebe deixou Kit no sofá para atender. - Boa noite. Posso entrar? Ele segurava uma fita de vídeo. - Quem é você? - É uma longa história, e eu preciso contar o que sei para as três encantadas. A princípio, posso adiantar que sou um espírito. - Espera que eu deixe entrar um espírito? - Posso ajudar vocês a capturarem um demônio. - Está bem, entre. - Obrigado. Pode chamar suas irmãs? - Er... Não. Apenas uma delas. Piper!!! Ela surgiu, melada de chocolate. - Que é??? - Este é... - Peter. - É. Ele é um espírito e quer nos falar algo. Limpando as mãos, Piper comunicou: - Prue está no trabalho, mas logo chegará. - Serei breve: vocês já devem estar sabendo do caso de Frannie Duckban, não é? - Não, disse Piper. Phoebe explicou: - Uma garota foi morta no parque brutalmente arranhada e ainda não acharam o culpado. - Ah... - Vejam esta fita. Ele foi ao vídeo, inseriu a fita, ligou a tevê e apertou “play”. Phoebe reconheceu Frannie de imediato, pois ela tinha cabelos loiros chamativos e uma pele lisa e branca. Ela dizia uma declaração ao namorado, que iniciava uma discussão e colocava a câmera sobre uma pedra. A partir daí, apenas ouviam-se sons, um diálogo estranho e o grito final. - Não há mais nada a ser visto. Eu achei a câmera e vi tudo. A polícia não sabe. - Por que exatamente você achou a câmera?, indagou Piper. Houve um breve suspiro. - Não é comum ocorrerem ataques demoníacos. Digamos que às vezes eu sinta que um deles vai atacar. Essa particularidade me permite impedir uns poucos casos. Meus poderes param por aí. Não posso combater demônios. Bem, eu senti que esse rapaz iria se manifestar e causar algum dano, então eu, o espírito, encarnei num guarda local que tentava encontrar a origem do grito. Quando encontrei, não havia nada além do corpo e da câmera. Preciso que vocês usem seus poderes para destruí-lo e impedir mais mortes. Piper ficou curiosa: - Certo, mas se você pode encarnar em um alguém, por que não o fez no demônio, detendo, assim, o crime? - Só consigo encarnar em gente mesmo. Em demônios é impossível. E se eu encarnasse em Frannie, poderia até lutar, ou fugir, mas se morresse, nunca mais poderia voltar a encarnar em alguém como um castigo pela incompetência. - Ai... - O que foi, Phoebe? - Eu tive uma premonição. - E o que viu? - Esse cara da fita entrando no prédio da Buckland. ************************************************************* Prue chegou, acompanhada por Tânia. Phoebe veio recebê-las. - Está tudo bem? - Claro! Quer dizer que você viu alguém entrar na Buckland? - Um demônio. Mas agora você está em casa, segura. Tânia! Como vai? - Vou bem, mas... eu a conheço? Phoebe esquecera que, após a morte do demônio do futuro, Tânia jamais se lembraria de nada. Prue falou: - Falei de você às minhas irmãs! Esta é Phoebe. Phoebe, Tânia. As duas apertaram as mãos e trocaram sorrisos. - Ela sabe que somos bruxas., explicou Prue. Tânia ficou surpresa: - Você também é bruxa? Pensei que fossem só Prue e Piper! - Este livro aqui é de Wicca!, disse Prue, sem ter mais o que fazer. - Legal! Depois eu vou dar uma olhada nele. - Vamos subir? Na cozinha, Piper preparava as abóboras que seriam usadas como enfeite, ajudada por Peter. - Por quanto tempo você ficará no corpo deste guarda? - Até que o demônio morra. Estou preso a esse corpo, e só me libertarei quando a missão for concluída com sucesso. Piper colocou uma vela no interior de uma delas e tampou em seguida, dizendo: - Perfeito! Sentadas na mesa do sótão estavam Prue e Tânia. Velas, incenso, uma bandeja de prata no centro e os ingredientes ao redor. - Vá colocando tudo isso aí na bandeja. Elas colocaram algumas páginas antigas em branco, uma margarida, um líquido vermelho uma pitada de algo parecido com areia escurecida e um ramo bem verde. - Pronto? - Não, falta o principal. - O quê? - Como ele se chama? - Gary. Prue se preparou e leu: - “Que um romance seja escrito além dos limites do criador, aproximando Tânia e Gary ao mais contínuo amor, com início, meio e sem fim, como o segmento iniciado por Condor.” Na bandeja se formou, coma mistura dos ingredientes enquanto Prue citava o feitiço, os rostos de Gary e Tânia. - É ele? - É. Não é lindo? Discordando, Prue despejou uma gota d’água e a imagem se desfez, fazendo sumir os ingredientes. A bandeja estava vazia novamente. - Obrigada, Prue! - Tudo bem. Vai vir ao Halloween? - Talvez. Agora eu tenho um encontro com ele lá na Buckland. Estou atrasada. Tchau! ************************************************************* - Desta vez sua premonição falhou, Phoebe, disse Prue, entrando na cozinha. - Impossível. Como posso errar algo fora do meu controle? - Okay, vamos revisar. O que exatamente você viu? - Primeiro, apareceu a Buckland, depois o cara da fita entrou lá. Era noite. Foi só isso. Aí eu liguei pra você e você já estava no caminho de casa. - Que fita é essa? Peter apertou “play” e Prue logo percebeu de quem se tratava. - O namorado de Tânia! - O quê?, surpreendeu-se Peter. - Eu fiz um feitiço para aproximar uma amiga do seu namorado. E agora eu sou mais que obrigada a detê-la! - Onde ela está? - Ela disse que iria à Buckland. - Vá até lá com Phoebe. Ela lhe falará sobre mim e a fita. ************************************************************* A decoração foi sendo posta com abóboras, falsos ossos e vassouras penduradas por um cordão, balançando no ar. A mesa principal estava cheia de doces e salgados, e o centro tinha um grande bolo de chocolate. - Você sabe o que faz! - Obrigada, Peter. Foi duro, mas tudo está aí, daqui a pouco os convidados vão chagar! - Hoje deve ser um dia especial pra vocês... - É! Mas nossa comemoração será apenas essa, com todos os amigos. - Pensei que vocês, após a festa, fossem comemorar a passagem do ano. - Algumas bruxas celebram o Halloween adorando o diabo. Mas somos bruxas boas e lutamos contra o diabo. Uma abóbora foi posta sobre um altar, debaixo da escada, que continha velas, uma preta a Oeste e uma branca a Leste. Havia também um cálice, um punhal e um medalhão contendo um pentagrama. ************************************************************* O carro estacionou em frente ao edifício, e as duas desceram e correram até a porta de entrada. Estava fechada, com um cadeado. - Gary entrou mesmo? - Ah, passou por aqui. Eles não podem ter entrado Realmente se a porta está trancada. - Talvez sua premonição tenha sido sobre amanhã. - É. Vamos pra casa, por que a festa já começou. Elas caminharam na direção do carro, mas foram interrompidas: - Parem! Viraram-se. - Quem são vocês? - Eu trabalho aqui na Buckland e vim encontrar uma amiga, Tânia., explicou Prue ao vigilante. - Acho que está falando de uma mulher que saiu daqui ainda a pouco. - Ela estava acompanhada? - Estava, por quê? O carro deu partida. ************************************************************* A porta da casa das Halliweel se abriu. Três amigos sorriam para Piper. - Oh! Boa noite. Como vão? - Tudo bem. A festa já começou? - Acaba de começar, entrem! Os três entraram. Havia cerca de cinqüenta pessoas, todas conversando, dançando ou bebendo. - Onde está Prue? - Foi comprar gelo com Phoebe, mas daqui a pouco volta. A banda animava a festa, tocando rock no palco armado para a ocasião. Tudo ia perfeitamente. Prue entrou. Cumprimentou os convidados junto a Phoebe e subiu ao primeiro andar para tomar banho. Peter servia o que havia ajudado Piper a preparar. Todos pareciam estar se divertindo, com exceção de Piper, que corria de um lado para outro sorrindo e tentando deixar os convidados à vontade. Prue saiu do banheiro numa toalha branca e entrou no seu quarto. Ficou em frente ao espelho admirando sua beleza. - Prue? - Quem é? - Euzinha! - Não me diga que quer... - Um vestido emprestado. - Phoebe... - Por favor! - Tá, toma. Suja, pra tu lavar com a língua. - Calma, minha irmã. Antes de sair, Phoebe viu uma pedra encima da penteadeira. - O que é isso? - Achei por aqui hoje. - Pra quê serve? - Não deve ter aparecido à toa. Acho que devo usá-la para matar o demônio. - Você vai ficar numa festa enquanto sua amiga pode estar em perigo por causa do seu feitiço? - Tentei encontrá-la. Não há feitiço para encontrar alguém. Agora deixe eu me trocar. - É melhor você guardar essa pedra no bolso. Prue foi à penteadeira e pegou a pedra. - Não se preocupe. Phoebe deixou o quarto. ************************************************************* - Boa noite- disse Prue no palco, dando folga à banda. É com enorme satisfação que recebo todos vocês hoje... Você aqui??? Você não foi convidado! Afaste-se de Tânia. Furioso, o homem a quem ela se referia foi até o palco. Ágil, Gary avançou, adquirindo unhas maiores, e arranhou o braço de Prue. Seu rosto também ia se transformando, e os olhos foram tomados de veias vermelhas. Prue jogou-o na parede. Os convidados não piscavam, atentos a qualquer movimento. Phoebe procurava a solução. - A pedra, Prue! Colocou a mão no bolso e exibiu a pedra. Nada aconteceu. Phoebe subiu no palco e explicou, para seus colegas: - E este foi o primeiro ato da peça... “O Halloween”. Logo mais teremos a continuação. Aguardem. Tratou de aumentar o som, abafando o que se dizia no palco. Como a pedra parecia não servir, Prue a descartou. Gary avançou, apertando seu pescoço com força. Sua voz não saía. Não conseguia sequer movê-lo. De repente, Gary soltou um grito e largou o pescoço de Prue. Atrás dele, Peter segurava a faca que havia penetrado nas costas do demônio. Com rapidez, Gary agarrou a cabeça de Peter e girou-a o quanto pôde. O corpo do guarda caiu no chão. Phoebe havia tratado de fechar a cortina, para que os convidados não percebessem nada. Prue estava sem saída. A pedra, que pensara servir para matar demônios, não tinha nada de especial. O espírito que descobrira Gary não mais poderia encarnar em alguém, e o Livro das Sombras não ajudara em nada. Lembrou-se de que, no livro de Wicca que lera, havia dicas de auto defesa. Agora era hora de pôr em prática o que havia lido. - “No centro uma chama nasce, Candlema, tocha sagrada, e a força me faz crer, neste momento clamo por ti.” Pôde-se ouvir sons de sinos tocando em meio a rápidas cavalgadas. Uma nuvem amarela surgiu de baixo e tomou todo o corpo do demônio. Ele gritava, tremendo um pouco, enquanto a nuvem ia entrando pela sua boca. Quando a fumaça amarela entrou por completo, Gary entrou em combustão. Sua pele, sua roupa, seus cabelos queimavam. O demônio e o fogo, misturados, voltaram a formar uma nuvem amarelada. A nuvem voltou ao chão. Não havia ninguém no palco além de Prue. ************************************************************* - A festa foi ótima, Piper. - Obrigada. Boa noite. A porta da frente foi fechada. Logo Piper subiu e entrou no sótão. Phoebe e Prue estavam próximas ao Livro das Sombras. - O que está havendo, pessoal? - Precisamos escrever no Livro das Sombras o feitiço usado por mim, para que as próximas gerações não tenham tanto trabalho. Prue escreveu o feitiço numa página em branco, explicando para quê ele servia. - Feliz Halloween, Prue e Phoebe... - O quê? Já vai dormir? - A festa me deixou cansada. - Calma, Piper! É o nosso dia! Temos que fazer uma celebração particular! - Tá, vamos lá. As três desceram às pressas. O relógio marcou doze horas. No telhado, Kit olhava para a cidade. São Francisco estava iluminada pelo luar do novo ano. ***